Salzkammergut, a impressionante beleza da região dos lagos
- Virna Miranda
- 30 de dez. de 2020
- 8 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2021
Outubro 2013
Inicialmente, nosso roteiro na Ćustria contemplava apenas Viena e Salzburgo. A ideia era fazer o percurso entre as duas cidades de trem. Mas um dia, navegando pela Internet, descobri um post no blog "Papo de Viajante" que me deixou ensandecida. O texto descrevia uma viagem de 3 dias pela regiĆ£o dos lagos conhecida como Salzkammergut, que fica exatamente entre Viena e Salzburgo. As fotos e comentĆ”rios do autor remetiam a um lugar paradisĆaco, repleto de paisagens de tirar o fĆ“lego. NĆ£o pensamos duas vezes em refazer nosso roteiro, alugar um carro e incluir essa incrĆvel aventura em nossas andanƧas pela Ćustria.
E foi com um misto de ansiedade e curiosidade que partimos de Viena no dia 27 de outubro, uma manhã de domingo e aniversÔrio de Zeca, que seria comemorado em grande estilo. A região de Salzkammergut é formada por muitos lagos incrustados no meio dos Alpes. Os principais são Attersee, Wolfgansee e Mondsee.

A beleza impressionista do lago Attersee
A viagem de carro de Viena atĆ© o inĆcio desse roteiro mĆ”gico leva apenas 2 horas e meia. SĆ£o 260 km de uma rodovia perfeita. Passamos em frente Ć famosa Abadia de Melk, mas seguimos viagem. Se tiver um tempinho, vale a pena parar para uma visita.

Chegamos a Attersee por volta das 14h. O lago de mesmo nome é um imenso bloco de Ôgua doce com 20 quilÓmetros de extensão e é o único da região que não congela no inverno. Suas Ôguas excepcionalmente claras são ideais para mergulho autÓnomo.

Em Linkberg, nossa primeira parada, ficamos encantados com as casinhas, pĆeres e flutuantes na beira do lago. As Ć”rvores coloridas pelo outono, tendo o lago e as montanhas como paisagem, nos davam o sinal do que encontrarĆamos pela frente. Andamos pelo local explorando as ruazinhas entre as casas que beiram o lago.
Emoção e contemplação é o que descreve essa etapa do nosso roteiro. Uma parada na civilização para entregar nossos cinco sentidos à imensidão da natureza que foi tão generosa nesse lugar.
Mais a frente, atravessamos a ponte em um lugarejo chamado Kammer, onde o lago encontra o rio que batizou a cidade. Do outro lado, um grupo de crianƧas se divertia alimentando cisnes e patos.
AtƩ eu conquistei um novo amigo!

Logo depois da ponte, paramos em uma espƩcie de lanchonete onde fizemos um belo lanche com salsichas vienenses e uma cerveja deliciosa.
Reabastecidos, partimos para contornar o lago Attersee. A estrada fica espremida entre as montanhas e a Ôgua, num visual deslumbrante, que vai mudando a cada ângulo da rota.


Como estƔvamos no outono, eram apenas 16:30 e o sol jƔ tinha comeƧado a se esconder por trƔs dos Alpes, mas essa luz de fim de tarde deixou o cenƔrio ainda mais surreal.


Assistimos as luzes dessa cidadezinha se acenderem. InesquecĆvel!


Nesse primeiro dia na regiĆ£o, pernoitamos na cidade de Strobl, onde chegamos por volta das 17:30, mas jĆ” com tudo escuro. Nosso hotel alpino ficava na beira da estrada, mas era bem simpĆ”tico, todo em madeira, com decoração tipicamente austrĆaca.
Jantamos no restaurante do hotel, especializado em caça, onde fizemos uma excelente refeição. Ganso para Zeca e truta para mim, coroados por um estupendo apfelstrudel.
Fechamos nossa noite e as comemoraƧƵes do aniversariante com chave de ouro.
Acordamos cedo e tomamos cafƩ antes de seguir viagem. De dia, pudemos admirar melhor a paisagem ao redor do nosso hotel.
E partimos para conhecer Hallstatt!
Hallstatt, um paraĆso escondido no meio do mundo
Eu estava super ansiosa, porque desde que comecei a pesquisar sobre a Ćustria, encontrei tantas fotos deslumbrantes e tantos comentĆ”rios dizendo que esse lugar era o ponto alto de Salzkammergut... SerĆ” que seria isso tudo mesmo? No caminho, passamos por dentro da cidade de Bad Ischl, a maior da regiĆ£o, mas a visita ficaria para o final do dia.
Pelo que lemos, se você estiver em Salzburgo levarÔ umas 3 horas para chegar a Hallstatt, pegando trem, Ónibus e barco. De carro e jÔ na região dos lagos, levamos apenas 30 minutos. A estrada, linda, jÔ revelava o que nos esperava. A cada curva, a ansiedade aumentava mais. Atravessamos um túnel que corta a montanha e, enfim, lÔ estÔvamos. Estacionamos em um dos parkings, jÔ que a cidade é tombada pela UNESCO e não é permitida a circulação de automóveis no centro histórico. De uma forma ou de outra, VENHA! Nunca conheci nada parecido na vida. As fotos falarão mais que mil palavras, mas vale uma breve descrição da nossa experiência.
Dica: a cidade tem apenas 3 parkings, cujo pagamento é feito no final da visita em um totem eletrÓnico. Ouvi dizer que na alta temporada corre-se o risco de não ter vaga e aà não sei qual é a solução... Então, a recomendação é tentar chegar cedo para garantir o lugar.
A pequena Hallstatt Ć© na verdade uma aldeia e tem apenas 946 habitantes. Ćs margens do lago HallstƤtter See, a vila Ć© feita de casinhas alpinas de madeira, uma colada na outra, e muitas debruƧadas sobre o lago.
Ao fundo, os Alpes se erguem majestosos, formando um cenƔrio de conto de fadas.

Fomos brindados com um lindo dia de sol e a luz que entrava pelas frestas das montanhas deixava tudo ainda mais incrĆvel.
As ruelas são repletas de lojinhas, restaurantes, cafés convidativos.
Adoramos esses chapéus, mas a vendedora cometeu a "delicadeza" de nos informar que os acessórios eram para venda e não para fotos. Só pela mal criação, desistimos de comprar...

Mas a beleza de Hallstatt Ʃ tanta, que nada tiraria nosso humor. A cada passo, uma vista mais espetacular que a outra. Perambulamos pelas ruas atƩ chegar na praƧa central da vila, que tem alguns restaurantes e cafƩs bem legais - foi aqui que almoƧamos, mas isso seria mais tarde...

Seguimos para visitar a igreja, que fica no alto, e onde se chega subindo uma escadinha de pedras no meio das casas.
LÔ em cima, encontram-se o cemitério (até esse tem uma vista deslumbrante) e uma atração bem curiosa de Hallstatt, o OssuÔrio conhecido como Beinhaus (literalmente casa de ossos).

O OssuĆ”rio de Hallstatt foi construĆdo no sĆ©culo XII para abrigar os crĆ¢nios dos mortos enterrados no cemitĆ©rio - como o local era pequeno para atender Ć comunidade local, criou-se a tradição de após 10 anos da morte retirar as ossadas das covas, higienizar os crĆ¢nios e pintĆ”-los com flores, folhas e serpentes, alĆ©m do nome e data de morte do falecido, como uma homenagem post-mortem. A pintura era feita pelos próprios coveiros e depois as "obras de arte" eram expostas e organizadas pela famĆlia na pequena capela construĆda no local. Hoje, o OssuĆ”rio abriga 1.200 caveiras, sendo que a Ćŗltima foi adicionada Ć coleção em 1995.
Parece mórbido, mas na verdade achamos uma homenagem bem legal aos antepassados.
Após a curiosa visita ao OssuÔrio, paramos na pracinha para reabastecer as energias. Escolhemos para almoçar o simpÔtico café Derbl, onde comemos massas deliciosas e experimentamos a saborosa Cerveja Hallstatt.
Depois do almoƧo, continuamos nosso passeio, incansƔveis de contemplar tanta beleza.

Olha só que paz essa foto. DÔ vontade de largar tudo e ficar por aqui...


Mas o ponto alto (literalmente) do passeio ainda estava por vir. Subimos o telefĆ©rico para conferir a vista indescritĆvel do mirante. Esse bondinho tambĆ©m dĆ” acesso Ć mina de sal que Ć© uma das principais atraƧƵes de Hallstatt, aberta Ć visitação.

Considerada a mais antiga do mundo, a mina de Hallstatt foi descoberta no inĆcio da Era do Ferro (800 ā 400 a.C.). O sal jĆ” foi uma das maiores riquezas da Ćustria (aliĆ”s Ć© do sal que deriva a palavra Salzkammergut) - no primeiro milĆŖnio antes de Cristo, os povoados da regiĆ£o prosperaram graƧas Ć mineração de ferro e Ć produção do sal.
Mas, decidimos abrir mĆ£o dessa programação que achamos turĆstica demais para nosso gosto e gastar o restinho de tempo que tĆnhamos para curtir o visual.

LƔ em cima da montanha tem esse mirante modernoso. Segure o fƓlego!
Parece que estamos no topo do mundo...

E a vila de Hallstatt parece tão pequenina lÔ embaixo...

Sentamos em um banquinho e deixamos nossas mentes viajarem diante da grandiosidade da natureza a nossa frente...
Uma paradinha para o chĆ” da tarde em Bad Ischl
Extasiados, nos despedimos de Hallstatt, com a certeza de ser um dos lugares mais estonteantes que conheceremos em toda a nossa existência. Pegamos nosso possante e tocamos para Bad Ischl, onde chegamos no finalzinho da tarde. A cidade é uma graça e uma das maiores da região, com muitas opções de hospedagem, restaurantes e cafés.
Encontramos esses lindos leƵes espalhados pela cidade.
E falando em cafĆ©s, fizemos um pit stop nessa linda e luxuosa cafeteria, onde comemos as deliciosas tortas vienenses, acompanhadas pelo divino cafĆ© da Ćustria. Na mesa ao lado, umas senhoras super chiques tomavam espumante e comiam torta de frutas vermelhas. Um luxo só!
Pernoite em Sankt Gilgen
Dia chegando ao fim, pegamos a estrada para Sankt Gilgen, onde pernoitarĆamos. Nas margens do lago Wolfgansee, essa Ć© uma das cidadezinhas mais charmosas da regiĆ£o dos lagos. Mas o lugar Ć© um balneĆ”rio - acho que no verĆ£o a galera curte altos mergulhos nessas Ć”guas cristalinas. Mas a essa altura do outono, mais parecia uma cidade fantasma...
Gostamos muito do nosso hotel, em estilo alpino, todo de madeira, bem romântico.
Com fome, fomos em busca de um lugar para jantar. Eram apenas 19h e jÔ estava tudo absolutamente fechado. Andamos pelas ruas desertas até encontrar o restaurante de um hotel aberto e até com gente dentro!!! Um grupo de senhores jogando poquer e mais uns 2 casais desavisados como nós... Mas a comida era boa e tomamos um vinho chamado Romanello que Zeca adorou. E fomos dormir com as galinhas...
O dia seguinte amanheceu chuvoso. Pegamos guarda-chuvas emprestados do hotel e saĆmos para fazer o reconhecimento da cidade, que continuava fantasma. Juro. Só tinha a gente e mais um casal andando pela rua.
Mas o lugar realmente Ʃ uma graƧa.

Os guarda-chuvas coloridos deram um charme especial para nossas fotos!
Esse Ʃ o lago Wolfgansee. Olha a cor da Ɣgua, que espetƔculo!

Em St. Gilgen tem um famoso telefĆ©rico que te leva a 1.800 metros acima do nĆvel do lago, com uma vista panorĆ¢mica da regiĆ£o, mas com a chuva e a neblina nĆ£o daria para ver nada lĆ” de cima, entĆ£o encerramos nossa visita Ć cidade e pegamos mais uma vez a estrada. Era chegada a hora de conhecer Salzburgo.
Ćltimas paradas antes de Salzburg: Unterach e Mondsee
Mas, antes de chegar Ć cidade natal de Mozart, ainda visitarĆamos duas cidades de Salzkammergut - Unterach e Mondsee.
Unterach nĆ£o chega a ser uma cidade, estĆ” mais para uma marina de luxo, que Zeca apelidou de cidade dos barcos fantasma. Fica na pontinha do lago Attersee - sim, o mesmo do inĆcio do passeio. Na verdade, Ć© tudo muito perto e vocĆŖ pode fazer esse roteiro de vĆ”rias formas diferentes.

Estava um frio de doer e não vimos um ser humano no lugar. Para não dizer que não tinha uma alma viva, nos divertimos com esses simpÔticos patos, que nadavam totalmente despreocupados com a temperatura da Ôgua que devia estar uns... 2 graus!!!

Mas nĆ£o preciso dizer que o lago Ć© lindo de morrer - acho que jĆ” estou ficando repetitiva! Olha que delĆcia esse balanƧo!
Ticamos Unterach e seguimos para Mondsee, nas margens do lago de mesmo nome. A cidade era um pouco maior e portanto um pouco mais movimentada - uns 8 turistas andando pelas ruas, somando com a gente 10. Ok, estƔ bom para o saldo do dia. Ah, confesso que a essa altura jƔ estava ansiosa para chegar em Salzburgo, mas vamos dar um crƩdito a Mondsee. Com suas casinhas coloridas, a cidade Ʃ bem bonitinha...
Tivemos alguma dificuldade em encontrar um lugar para almoƧar. Afinal, era hora do almoƧo e todos pareciam estar almoƧando, portanto, estava tudo fechado. Encontramos esse simpĆ”tico cafĆ©, que servia algumas opƧƵes de refeição. Comemos umas salsichas, tomamos vinho e cerveja austrĆaca e arrematamos com uma deliciosa torta de frutas vermelhas. Estava tudo bem bom!
Depois da lauta refeição e do vinho, por desĆgnios divinos encontramos um jardim fechado com essa chaise de balanƧo. NĆ£o resistimos a uma breve relaxada!!!
Veja se consegue me encontrar nessa foto!

Com a energia revigorada, após esses 3 dias maravilhosos, repletos de paisagens deslumbrantes e muita paz de espĆrito, era chegada a hora de retornar Ć civilização e conhecer a linda Salzburgo. Felizes e realizados por nossa escolha, nos despedimos da maravilhosa regiĆ£o de Salzkammergut e tocamos para a terra de Mozart.
Para saber mais sobre nossas aventuras pela Ćustria, leia:
Salzburgo, na terra de Mozart
Dê uma conferida também na nossa passagem por Paris esse post:
Paris